Por muito tempo me esforcei para me tornar aquilo que todos procuram encontrar em uma pessoa.
Abri mão de motivos e sentimentos próprios para tentar corresponder expectativas que eu acreditava que alguém criava sobre mim.
Porém, hoje percebo que fora absolutamente em vão, pois, nada do que fiz foi percebido por ninguém além de mim, ainda, que provavelmente, somente eu tenha interpretado assim, afinal, por mais que tentemos ser neutros quando analisamos nossos comportamentos, a tendência é que a neutralidade seja sempre favorável a nós.
E por fim, todos aqueles a quem acreditava ter me dedicado demais, por tempo demais, seguiram seus caminhos e eu permaneci aqui, sozinho, remoendo tudo o que deixei de fazer por eles, mas, bem lá no fundo, eu sei, que essa dedicação toda foi mais por mim, do que por qualquer outra pessoa ou motivo, talvez por isso, hoje me sinto assim, vazio, porque não havia um verdadeiro sentido em minhas ações, apenas, uma conveniência nostálgica que durou tempo demais.
E desde então, tento de todas as formas fugir do que tanto me incomoda, tento, não mais me dedicar por tempo demais a quem nem mesmo se incomoda com o tempo que me disponho a simplesmente estar...
Porém, olho para as pessoas a minha volta e vejo em cada superficial sorriso um vácuo deixado pela solidão, vejo em supostas verdades o contorno sutil das verdadeiras mentiras contadas para enganar mais a si, do que a quem as ouve, percebo em cada gesto, o grito calado no peito de que algo está muito errado, ouço em silêncios sussurrados pelos dedos o berro escandaloso do pedido de socorro.
Mas, eu tento fugir, fingir que não percebo, que não sinto e não ouço os subliminares códigos de uma doentia ação de fuga, tão doentia quanto a minha atitude de querer e tentar me esconder de mim e de todos, tão doentia quanto a minha constante busca pela solidão, na esperança de que seja ela minha melhor companhia.
Sigo, sozinho, talvez por tempo demais, buscando aquilo que jamais desejei realmente encontrar.
Sigo, tentando desfazer os sentidos de tudo aquilo que já fora provado ser o único caminho para ser seguido de forma segura, na insegurança das mudanças dos dias que de tão curtos demoram a passar.
Sigo, talvez por tempo demais, tentando me enganar que não sou mais o que sempre tentei deixar de ser, sigo, tentando transmutar em mim aquilo que o universo estabeleceu como minha essência e mesmo sabendo ser uma inútil batalha, sigo lutando, para ocupar o meu tempo, que apesar de tanto transcorrido, tenho a impressão que já transcorreu tempo demais.

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